O chamado “golpe do advogado” tem feito milhares de vítimas em todo o Brasil, especialmente aposentados, pensionistas e pessoas que possuem processos judiciais em andamento, principalmente na área previdenciária. Trata-se de um esquema em que criminosos se passam por advogados ou funcionários de escritórios de advocacia para enganar o cliente, afirmando que há valores a receber no processo, mas que antes é necessário pagar determinadas “taxas” para liberar o dinheiro.
O mais assustador é que esses golpistas não agem no escuro. Eles utilizam dados públicos da Justiça, por vezes comprando acessos de advogados aos sistemas judiciais. A partir deles, os criminosos obtêm o número do processo, nome das partes, nome do advogado, tipo de ação, valor da causa e até a fase em que o processo se encontra. Com essas informações reais em mãos, entram em contato com o cliente por WhatsApp ou telefone, passando uma falsa credibilidade logo no primeiro contato.

Normalmente, a abordagem segue um roteiro bem definido. O golpista coloca a foto do advogado da pessoa no What diz que o processo “saiu”, que houve “liberação de valores” ou que o juiz já determinou o pagamento. Em seguida, informa que, para receber, é preciso quitar algumas despesas obrigatórias, como custas finais, taxa de expedição de alvará, imposto ou honorários de contador judicial. Os valores pedidos costumam variar, geralmente entre R$ 3.000, R$5.000 ou até mais, dependendo do suposto montante envolvido.
O golpe funciona porque eles exploram dois pontos sensíveis: a esperança e a urgência. O criminoso ancora a conversa no valor da causa do processo, dizendo algo como: “O senhor tem R$ 98 mil para receber, mas precisa pagar R$ 3.500 hoje para liberar”. Diante da expectativa de receber uma quantia maior, muitas pessoas acabam fazendo o Pix sem confirmar a informação, acreditando que estão apenas antecipando um pequeno valor para ter acesso a um montante muito maior.

Para entender melhor essa manipulação, é importante saber o que é o valor da causa nas ações previdenciárias. Esse valor não significa dinheiro garantido na conta. Ele é apenas uma estimativa inicial: a soma das parcelas vencidas (atrasados desde a Data de Entrada do Requerimento – DER) com 12 parcelas vincendas (futuras), conforme o artigo 292 do CPC.. Serve principalmente para fins processuais, como definição de competência e cálculo de custas, mas não representa o valor final que será recebido.
Na prática, quando o juiz dá a sentença, ele não determina imediatamente um valor exato em reais para pagamento. O que ocorre é a condenação do INSS (ou do órgão responsável) a pagar conforme determinados critérios: reconhecimento de tempo, revisão de benefício, implantação de nova renda mensal, pagamento de atrasados, entre outros. Depois disso, o processo entra na fase chamada liquidação, em que são feitos cálculos detalhados para apurar o valor correto, com atualização monetária, juros e aplicação exata do que foi decidido na sentença.
Somente após essa fase de liquidação — e, muitas vezes, depois de recursos — é que se chega ao valor definitivo. Em seguida, ainda pode haver expedição de RPV ou precatório, dependendo do montante. Ou seja: não existe liberação imediata de dinheiro logo após a sentença, e muito menos exigência de depósitos urgentes via Pix para “destravar” valores.
Outro ponto importante: a Justiça não cobra taxas por WhatsApp, e advogados sérios não pedem pagamentos inesperados por mensagens genéricas, muito menos por contas de pessoas físicas desconhecidas. Custas processuais, quando existem, são recolhidas por guias oficiais do tribunal, e qualquer honorário é tratado diretamente com o advogado contratado, por meios formais e previamente combinados.
Para não cair nesse tipo de golpe, algumas atitudes simples fazem toda a diferença. Desconfie de mensagens dizendo que há dinheiro liberado com urgência. Nunca faça Pix ou transferências sem falar diretamente com seu advogado pelos contatos que você já conhece. Não confie apenas na foto de perfil ou no nome do WhatsApp — isso é facilmente falsificado. Sempre peça documentos oficiais, número de alvará ou movimentação processual, e confira essas informações no site do tribunal. Entre em contato com o número de WhatsApp que você já tem do seu advogado(a), ou confira as redes sociais dele(a) para ver se o número mudou.
Também é fundamental lembrar: nenhum valor é liberado sem que você seja comunicado formalmente pelo seu advogado, com explicação detalhada da fase do processo, do valor envolvido e do procedimento correto. Se alguém aparecer exigindo pagamento imediato para liberar dinheiro, pare tudo e confirme antes de qualquer ação.
Por fim, converse com familiares, principalmente idosos, sobre esse golpe. Quanto mais informação circula, menos vítimas esses criminosos conseguem fazer. O conhecimento é a principal ferramenta de proteção. Em caso de tentativa de golpe, registre boletim de ocorrência e informe seu advogado para que ele também alerte outros clientes.
Golpistas se aproveitam da fragilidade emocional de quem espera há anos por um direito. Mas informação, cautela e verificação direta com profissionais de confiança são suficientes para impedir que esse tipo de crime continue fazendo vítimas.
Professor Nakamura (inscrição originária OAB/PR 61.856) é advogado há mais de 14 anos, com pós-graduações e com escritório presencial na Av. Paulista e atendimento para todo o Brasil.
